A quem serve o Fórum Econômico de Davos?

É raro ouvir opiniões negativas a respeito do Fórum Econômico Mundial, em Davos. A cada ano, a enorme estrutura montada para jornalistas de todo o mundo garante imprensa para suas ideias e personagens.

Celebridades como Shakira, estrela da edição 2017, circulam pela cidadezinha suíça divulgando causas, assim como presidentes de multinacionais, políticos, e líderes debatem os rumos da economia global. A pergunta que sempre fica é: Com todo esse ‘ferramental’ para influenciar, e quem sabe, mudar a opinião pública, a quem realmente serve o Fórum Econômico Mundial?

Em 1971, quando o alemão Karl Schwab criou o European Management Forum, abria-se uma oportunidade de convocar a sociedade europeia para causas que, até então, não faziam parte do senso comum, como a globalização. Em 1987, quando ganhou o nome atual, o Fórum se expandiu como espaço de discussão sobre comércio internacional, o que deu a Schwab diversos prêmios e doutorados honoris causa ao redor do mundo; do México à Mongólia, da Alemanha à Israel.

De lá pra cá, além de pautar a imprensa uma vez por ano, o Fórum Econômico também é responsável por vários rankings, o mais famoso deles é o de Competitividade Global. Mais recentemente, surgiu o ranking de inclusão feminina. Para rejuvenescer a instituição, Schwab têm também investido em podcasts, boletins informativos, concedendo também prêmios para jovens liderança, o chamado Global Shapers.

Em busca de agendas

A verdade é que o sentido do Fórum Econômico tem sido cada vez mais posto em xeque. Para a direita, ainda soa como um investimento em marca e relações; para a esquerda, uma ameaça à democracia, pois o evento privilegiaria a opinião de multinacionais bilionárias, enquanto esquece vozes periféricas. Schwab já afirmou que o “Estado soberano está obsoleto”.

Em 2017, como resposta a essas e outras críticas, o Fórum escolheu falar sobre desigualdade e capitalismo. Ao passo que a promoção segue a mesma receita, reportagens têm mostrado algumas divisões. Por exemplo, como CEOs e assistentes se hospedam em condições completamente diferentes durante o evento, ou como a sua diretoria não é tão representativa de minorias.

No programa 2017, as sessões variam de temas clássicos para a elite liberal como “O Futuro da Inovação”, com momentos mais politicamente corretos, como “Quem pode liderar um mundo multipolar?”.

Um relacionamento em crise

Na realidade, o que tem mudado é o tratamento dado ao Fórum pela imprensa internacional, que, paradoxalmente, sempre foi a sua tradicional aliada. A maior parte dos jornalistas convidados, a maioria baseada entre Estados Unidos e Europa, vem oferecendo cada vez menos destaque positivo.

Em 2016, a HP ameaçou a retirar publicidade do Financial Times, porque a colunista Lucy Kellaway, criticou o discurso da CEO, Meg Whitman. Whitman havia dito que é sempre possível “trabalhar mais rápido”, o que foi interpretado como uma gafe, numa instituição que diz valorizar as pessoas. O Guardian disse que Davos 2017 ‘arrisca ser um paródia’.

O problema maior não tem sido a ultra-concentração do debate, como sempre pregou a esquerda, mas o seu oposto, a aparente dispersão ou irrelevância. Alguns acreditam que o Fórum olha para trás, enquanto que, há contradição ao se falar de desigualdade, mas do ponto de vista da elite, o que tem se tornado insustentável. O fato de o Fórum estar sediado na Suíça, país cuja riqueza veio de um status de santuário para recursos muitas vezes ilegais, expõe um desafio de imagem cada vez maior.

Ideias em movimento

Desigualdades à parte, os temas do Fórum Econômico também parecem flutuar de acordo a agenda da mídia ou vice-versa. Em 2003, o ex-Presidente Lula acusou os países ricos de serem protecionistas, para ser agraciado em 2010, no auge de sua popularidade, com o prêmio “Estadista Global”. Desde então, o Fórum não só se distanciou de Lula, como do Brasil, país que raramente é notícia nos seus ‘boletins’.

Debates sobre a “Quarta Revolução Industrial” vêm tentando retomar uma relevância cada vez mais difícil de se manter. Um conceito inicialmente proposto por Schwab, a tal “revolução” trata da automação e os ditos “empregos do século 21”. Nessa tese, a robótica é o grande fator de mudança para o cidadão comum nas próximas décadas.

Se essas ideias são consistentes ou não, prioritárias ou não, é algo relativo. Acadêmicos geralmente veem com bons olhos iniciativas e agendas como as do Fórum Econômico. Instituições assim são chamadas de “multi-stakeholder decision makers”, isto é, quando membros da sociedade partem em busca de consenso sobre políticas públicas. É um modelo que a ONU já utilizou para consultas sobre parcerias público-privadas na área de educação.

O problema desse tipo de voluntarismo tem sido reunir debates, que, como dizem os críticos, deveriam estar no parlamento de cada país, acompanhadas por medidas implementadas por governos eleitos.

Um futuro comum?

De toda forma, se a motivação que o Fórum Econômico se atribui é a de “trazer as pessoas para perto”, qual o sentido de promover diversos rankings ao ano onde – sabidamente – os países em desenvolvimento aparecerão por último? Se países vão à Davos para fazer contatos, como faz o Brasil, por que não investir nesta função de ‘networking’, ao invés de patrocinar causas sociais subjetivas e não prioritárias para muitos países? E ainda, qual garantia que se tem de que ‘inteligência artificial’ é uma revolução, como se quer, e não uma plataforma de promoção para empresas de tecnologia que compõem o Fórum Econômico?

Se há algum beneficiado, além da tradicional classe financeira, certamente são aqueles que aproveitam Davos como plataforma para comunicar seus próprios interesses. Um exemplo positivo são organizações que atuam em países em desenvolvimento, que usam o evento para divulgarem estatísticas e gerar impacto, como fez a britânica Oxfam ao expor a incrível desigualdade de renda dos maiores bilionários do mundo.

Debates como esse são benéficos, mas limitados a um número pequeno de organizações. Mais será que tais consensos – sejam econômicos, sociais, ou sobre causas progressistas – os que Fórum Econômico julga relevante, são realmente prioritários localmente, pelo menos o quanto se faz parecer?

Para países em desenvolvimento, é preciso que se encare esses espaços de maneira menos inocente. Como disse o ex-presidente do México, Ernesto Zedillo, quando visitou o Fórum em 2010. Para ele, a “obsessão” em discutir mercados, parece mais uma agenda de países desenvolvidos: “Nós não teremos uma economia forte, se não tivermos um Estado que funcione pela regra da lei”.

A despeito do que faz parecer a imprensa, a realidade local ainda é mais importante e alheia a essas discussões de Davos, a exemplo das crises econômica e penitenciária do Brasil, inexistentes em 2017; fora do País, eventos como Brexit e a ascensão de Donald Trump, que passaram por anos despercebidos, de repente se tornaram o destaque das rodas para quem sabe daqui a alguns anos sumir de novo.

A julgar por esses desafios, da elitização às prioridades suspeitas do Fórum, Davos parece servir a esse sujeito “global” de endereço indefinido. Embora queira traçar um futuro comum, suas agendas ainda passam longe do que algumas sociedades precisam para o momento.

 

 

 

 

 

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