O silêncio de Marcelle

Quem entra no pavilhão do Brasil nesta 57a. Bienal de Veneza se depara com um incômodo vazio. Não há nada para ver. Tateamos pelo piso gradeado do espaço, percorremos algumas rampas; por um momento, estamos sobre ‘uma plataforma de ventilação de metrôs’, daquelas que encontramos na avenida Paulista. Sob os nossos pés, pedrinhas usadas em construção, ou seixos, foram espalhadas logo abaixo do gradeado, algumas presas entre as grades.

Ao fundo do pequeno quadrado brutalista, o visitante encontra com um conjunto de bandeiras brancas e cordas pretas, cujas hastes emergem das fendas do piso. “Chão de Caça” é o título do trabalho de Cinthia Marcelle, que representa o Brasil na mostra. De fato, a obra está em sintonia com a linha de pesquisa da artista, seja pelo constante uso de materiais de construção, ou por mostrar o trabalho “braçal” cotidiano em vídeo. No entanto, é interessante perceber o diálogo simbólico que se estabelece com a situação política do Brasil, cuja crise se tornou mais aguda justamente durante a abertura da mostra.

Seria o chão gradeado uma analogia à posição da elite enxergando o que falta fazer, e as pedrinhas de construção os seus dispersos cidadãos? Seria o que chamo aqui de ‘bandeiras brancas’ um pedido de diálogo coletivo? O que estaria o trabalho braçal mostrado no vídeo a nos dizer sobre o projeto em construção que é o Brasil? Seria o “chão de caça”, na verdade, um chão de caca?

Em entrevistas, a artista limitou-se a citar a situação precária em presídios brasileiros como uma possível ponte para entender o seu trabalho. Em outro momento, o curador Jochen Volz mencionou a motivação com aspectos ditos ‘banais’ do cotidiano, mas sem referências explícitas a esse contexto. O pavilhão tem apoio do Ministério das Relações Exteriores.

Isso parece não satisfazer a um público ávido por explicações e materiais promocionais. Por exemplo, nas minhas duas idas ao pavilhão, vi pessoas de várias nacionalidades andando em círculos em busca de algum sentido para aquele vazio; alguns perguntavam à monitora do que se tratava. Outros, com quem conversei, sentiram falta de um texto curatorial na parede. Não existindo qualquer material informativo, algo básico em outros pavilhões nacionais, eles tinham de se contentar com as pedrinhas, a olhar sempre para o chão.

Para muito além do piso gradeado, há algo de profundo acontecia ali, uma atmosfera que poderia conectar com o vazio político, existencial, e cultural do Brasil nos últimos anos. Essa conexão era aparente para quem descia a pequena ponte em direção à ilhota, onde o pavilhão brasileiro nos recebe. Da solidão da monitora sentada à porta, à solidão do visitante no quadrado branco, passando pelas vozes solitárias que falam dos problemas sociais, algo não muito claro aqui. Essas imagens compunham uma espécie de texto extraoficial. Nos poucos minutos que o visitante levou para percorrer a instalação, o silêncio de Marcelle é o que ficou do País nesta Bienal.

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